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sábado, 30 de maio de 2026

não cubram de flores meu túmulo.

 



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não cubram de flores meu túmulo
nem reescrevam minhas memórias

me procurem em túneis
onde o trem não passa


no escarcéu do mar
no barco à deriva
e marujos desesperados

me busquem em frases
de para-choques de caminhões
a um triz do precipício
da colisão

pensem com seus botões
no clímax que os agonizam

no alçapão que destrava
e os prendem
quando desconectados se encontram
no lapso memorial fremente

oh, me procurem
nas fendas de rochas inalcançáveis
que alcançam o centro da terra

nas sendas mortais
que precedem a fúria


nos escombros da catedral
atingida pelo míssil
ao lado do cemitério florido
onde jazem meus restos mortais
e os dos animais meus amigos
desde o corte do meu cordão umbilical

me procurem no vácuo
onde o cão de capa preta
deseja trepar com as virgens
santas de um incesto
na fragilidade da carne




oh! não cubram de flores meu túmulo!
minha vida foi o cúmulo
da paz branca que se traveste
em cinzas ao vento
no lado obscuro
do sangue carmesim...

o lado roxo
pigmentado de preto:
o folículo não-coagulante
dolorido de um câncer
no universo abstrato

em que os espíritos
de sodoma e gomorra
se divertem
muito além de céu e inferno
inimaginável
na dimensão
onde o lixo humano gravita

sem meios de voltar
para escrever sua passagem
à partir da morte







***

a Casa.

 


de tijolo se fez a casa
de vento se fez o sonho no seu interior

o sonho com o vento se foi
a casa permanece

espera novos inquilinos
até que vire pó ao vento

o que resiste ao tempo é só o pensamento
de quem chega e sai
na metamorfose do momento




***



tudo se transforma. a casa é cíclica e duradoura.
os usuários, com seus destinos vários, espraiam-se
e, muitas vezes, esquecem-se do recôndito anterior
para renascerem em outro, mas, caro amigo, apesar
da "casa", demorei anos pra entender a conexão de
todas as coisas. talvez sejamos casas carnais no desassosego
de evoluir dentro de rememórias e comparações, ou,
talvez, ainda, seja-nos vital o fato basilar de sempre
cultivarmos a lembrança como fuga ao que possa
acontecer ali na frente... mas isso é uma incógnita
no show da vida. o engraçado é que somos aventureiros
e curiosos. a casa permanece e se mantém ávida
por novos corpos, novas energias no tempo ilusuório.




***